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[Domingo, Julho 13, 2008]
Unknown
Tem medo quem tá só?
E como estar só se não se está?
É como estar só na sala de estar
Com os braços no apoio da poltrona e os olhos quase caindo...
E a cena que eu vi era esta só?
Não, junto do escuro havia a minha luz
Sem medo de me ver de perto ou de longe
Sem medo do tempo e do espaço, em tudo ela está
E agora, minha luz? A vida é uma só?
Vida alguma diz o que eu fiz, meu garoto:
Vida alguma vive pra contar!
E a luz não deixa só os que vivem a pensar?
Quem pensa demais, pensa besteira.
É melhor estar sozinho com a luz a vida inteira
A luz da companhia, a luz que é luz verdadeira
A luz do que se encontra e não consegue se separar.
E é aí que eu vejo tudo num só:
A luz sou eu mesmo, mas ao mesmo tempo não sou
A luz é calor do que vive, encontra e enfrenta o que vem
É vida etérea que vai muito além da distância
por Lucas Alvares * 12:26 AM Comments: ____________________
[Quarta-feira, Maio 21, 2008]
O Porre De Fanta Laranja
Onde já se viu fazer do refrigerante de laranja um engodo à alma? Pois vi eu, pelas ruas da Tijuca, em fins da tarde de hoje. Fez-se a alegria onde aos outros é estupor. Um velho solitário bebendo o líqüido laranja que saía da garrafa velha, onde a tintura mal se via. Felicidade é o que era para o Epicuro, aquele filósofo grego: o cotidiano imperturbável das alegrias tão solenes quanto um prato de arroz e feijao ou uma garrafa de Fanta gelada. Felicidade é o manjar comido no bar da esquina, desde que não seja ruim o suficiente para trazer dor de barriga. Aos que buscam o sofisticado para a busca do sonhado, afirmo: não há especiaria que compre uma boa rotina. Não há tempero que salgue um "tá tudo bem, obrigado". Nada sacia mais do que ser feliz com o que nós temos. Só assim, percebemos que temos muito. Só assim, percebemos que temos tudo. Encontrei minha felicidade em uma tarde de sexta, quase oito meses atrás, quando nada demais realizava: fazia o mesmo que faço todos os fins de tarde e inícios de noite de sexta. Lá, abro em um estúdio de rádio a minha caixa de pensamentos e jogo as minhas cartas na mesa. Sempre as mesmas. As mesmas piadas, as mesmas vozes, as mesmas risadas. Mas o meu prato-feito encontrou quem quisesse. Foi então que do meu cotidiano se fez um momento eterno, diferente de todos os outros que vieram antes e igual a todos os que vieram depois: uma só voz, com suas sílabas metralhadas. Uma só risada, de quem está com dor de barriga de tanto rir e ri das próprias indecisões. Um só pensamento: o sonho que todos estão carecas de saber, e que persigo desde aquele dia. Naquela tarde de sexta, abri a última garrafa da minha vida. Nunca mais precisei de sabor doce demais ou deveras salgado para temperar meus anseios. Meu tempero está no que vivo e aprendo todos os dias com esta mesma voz em meus ouvidos e em meu pensamento: que o eterno é quando percebemos o que os outros não dão bola.
por Lucas Alvares * 12:06 AM Comments: ____________________
[Sexta-feira, Maio 09, 2008]
Comédia Em Três Atos
Primeiro Ato: Ao Pranto O Que É De Pranto
Tudo bem, o bem venceu. Vou tirar o mal de mim. Prometo: quando o dia amanhecer, a dor de cabeça e o nó no peito serão bem menores do que o fim que se viu no frigir dos ovos. Afinal, a hora de pensar direito é a hora em que a porca torce o rabo. Eu juro que não encostei a arma em meu crânio de forma proposital. Foi tudo uma grande brincadeira. Não estou triste, nem sofro por meu pranto. Só o que eu temo é o desencanto. Desencantei-me com o que eu esperava de quase tudo, e vi a vaca ir pro brejo quando a onça bebeu água. Desencanei-me. Não adianta chorar só pelo pranto. O que vem para o bem não se amassa e joga fora. Nunca jogue fora os panfletos de rua sem antes saber para quê eles vieram. Alguns vêm para mudar a sua vida. Seus problemas acabaram. Os meus, só começaram.
Segundo Ato: Aneurisma Psíquico
É a dor que veio em besta bem no banco do metrô. No laranja, dos idosos, gestantes e crianças de colo. Era só o que restava. Logo, teria de levantar dali, já não tinha muito tempo. Já não tenho muito tempo. Hoje, senti tudo o que é caro esvair-se antes da hora. Desculpa, não deu pra segurar. Foi a minha vez de me evadir. Saí e entrei sozinho por portas e portões, ruas e esquinas, asfalto e pedras portuguesas. Com uma tremenda dor de cabeça, de um resto de gripe. E sem saber o que fazer. Com as mãos nos bolsos e a íris apontando para baixo, perambulei prantoso por minha solidão. Sem saber mais meu caminho, sem saber mais meu lugar.
Terceiro Ato: Sem Pranto Ao Que Não Tem
Tudo bem, o mal venceu. Vou lembrar do bem em mim. Prometo: quando a noite aparecer, a dor de cabeça e o nó no peito serão bem maiores do que o fim que se viu no frigir dos ovos. Afinal, a hora de pensar direito é a hora em que a porca torce o rabo. E qual hora que é? Sem saber pra onde ir, me esqueci do meu lugar. Me esqueci por cinco, dez segundos, do meu amor. Me esqueci de quem eu sou. Eu não sou o mal, o pranto, nem a derrota. Ainda. O mal não me venceu. O bem me deu poucas coisas, mas com as quais posso fazer meu pão e dormir meu sono. Quando relembrei o meu amor, que viu minhas costas virarem minutos atrás, me dei conta de que a hora em que a onça bebe água é a vitória nossa de cada dia. É o nosso pão. Por alguns minutos, naquela praça de metrô, me senti realizado: encontrei alguém que fez a vaca sair do brejo.
por Lucas Alvares * 12:07 AM Comments: ____________________
[Sábado, Maio 03, 2008]
O Cheiro do Ralo
Não tem medo quem dá a mão
Nem do ovo estragado
Nem do cheiro do ralo
Nem de tudo o que de ruim possa atingir
Não tem tempo quem dá a mão
Pra pensar no que é pior
No que vem de quem não faz
Menor falta, ou já jaz
Tudo o que é de ruim foi pra baixo do ralo
Quem dá a mão estende a alma
E se torna a que defende
Que vê o mal chegar perto e logo entende:
Não há fim pra quem dá a mão
Tudo o que é ruim há de passar
Tudo o que vier, vou enfrentar
Com a mão que vem junto enfrentar o mal
por Lucas Alvares * 12:08 AM Comments: ____________________
[Segunda-feira, Abril 28, 2008]
A Vida É Bela
Eis aqui o mesmo título de sete meses atrás: "A Vida É Bela". E nem sabia bem direito tudo o que de novo se abria e tudo o que pela frente viria quando incorporei esta frase quase como um mantra ao meu nickname no MSN, e escrevi o primeiro dos cento e poucos textos para o mesmo destinatário aqui neste blog. Ali, há sete meses, comecei a sofrer com muito do que os adultos sofrem ao mesmo tempo em que lidava com resquícios e impropriedades da minha adolescência. Isabela me faz crescer. Nestes meses todos, mudamos o que éramos e adotamos uma postura muito mais racional - e ao mesmo tempo solidária - com os problemas à nossa volta. Somos queridos por nossos amigos pela atenção e o carinho com que compartilhamos a nossa felicidade com as pessoas que gostam da gente. Mas sempre tivemos um certo ranço trágico ao lidar com os nossos próprios problemas, com essa vidinha que construímos e com o nosso sólido - e superlativo - futuro que planejamos. Neste aniversário de encontro - ou reencontro, sei lá - o que mais agradeço é pela compreensão e a paciência com que conseguimos passar pelos percalços comuns a qualquer casal. Tudo pra gente vira risada e "eu te amo", depois das inevitáveis lágrimas e do pressentimento de que "agora a vaca vai pro brejo". Nunca foi, e de lá nem chegou perto. Nestes sete meses, a certeza só cresceu a cada dia: quanto mais problemas para resolver e mais imperfeições nós descobríamos, mais apaixonados nós ficávamos. É como deve ser. Encontramos no pior de cada um a certidão de que conseguimos conviver - e até amar - estas imperfeições e rompantes. Nada mais nos tira a vontade de conseguir o que nos foi proposto. Há sete meses somos um só, meu amor. Muito pouco para quem vai ter sete décadas.
por Lucas Alvares * 12:09 AM Comments: ____________________
[Terça-feira, Abril 22, 2008]
Não dá tempo pra esperar nem mais um dia
Não há um tempo em que se esperou tanto
Não há um tempo em que se ouviu pranto
Tanto pranto quanto se ouviu agora
É pranto que o tempo traz, é estalo
Pensa e percebe o quanto o tempo fez o amor ganhar embalo?
O tempo da falta é o tempo do ganho
Poupo o tempo junto sem querer, ganho a falta que sinto do que gosto no viver
E aguardo a hora do bonde passar
Vamos subir juntos no estribo
É a hora do reencontro, do amor passar recibo
É a hora de sentir o tempo conseguido
Conseguimos domar o tempo e a falta
Percebemos que o tempo é mais do que bicho de pelúcia e brinco de prata
Aliança no dedo, conta conjunta, um futuro a dois
Se somos juntos hoje, por que pensar no depois?
O depois é a soma do tempo e da falta
É a balança do que passou e do que não foi
Seremos juntos no mesmo banco por esta causa
Tão logo em tempo cessar esta espera
Eu com as mochilas no colo, você com o rosto na janela
por Lucas Alvares * 11:55 PM Comments:
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[Domingo, Abril 13, 2008]
Ao Tempo O Que O Tempo Dá
Não tem tempo perdido pra quem tem as mãos juntas nas filas de banco, nos bancos das praças, nas tardes sem graça comendo pipoca, nas noites simplórias contando histórias ou nas manhãs sagradas, onde se bate na porta às oito horas em busca de um sim. Não tem tempo errado pra dar um abraço, um beijo ou dizer "eu te amo". Todo o tempo do Mundo aos afagos profundos que damos, impacientes, na espera de um dia só nosso. E todos os dias são um pouco nossos, a despeito de todos os outros. Somos nós pra tudo ouvir falar do que nós somos. Somos alvos, somos vívidos, somos a vida que nasce do impróprio e do impossível inevitável. Eu venci o impossível. Sou hoje um dos sócios do tempo a dois, e divido as ações metade a metade, graças a Deus. Venci a burrice que emana das almas profanas, das palavras vãs e superficiais e do medo da morte. Não há morte para o que é imortal. Hoje, eu vivo a imortalidade que há em cada gesto a alguém que se gosta. Certamente, não serei mais lembrado só como o que sou. Vou ser lembrado pelo dois que sou. Sou o Lucas da Bela, para todos os efeitos e para todos os chamados.
por Lucas Alvares * 11:09 PM Comments: ____________________
[Sexta-feira, Março 28, 2008]
Meu Lugar
Une a pele da magreza de um com a pele queimada e cheirosa no doce afã de fazer eterno o segundo vivido seis meses atrás. Era o big bang das almas, das mentes e dos corpos, unidos do jeito que deu, sob guarda-chuvas e com pressa. A pressa de anos e anos. Calaram o Mundo que veio ver o desafogo nas asas dos morcegos que passavam, e até os mosquitos da dengue pararam pra ver. As poças d'água suja ficam paradas, e assim viu atento o mais vil animal que por ali estava a nos observar. Perceberam a presença do eterno também os bêbados da praça, párias de sua própria sorte, que pediam brindes e discursavam sobre o amor. O amor que ninguém ali tinha visto, nos viu naquele início de noite. Eu vi as pontas dos pés se esticarem, o rostinho se erguer e os músculos do pescoço fazerem força pra me alcançar. Eu vi a espera na lágrima da menina, e o encontro solene dos olhos castanhos que se viam eternos pela primeira vez. Era a hora de fazer a nossa vez. E não importava o guarda-chuva atrapalhando a passagem no ponto de ônibus, os carros que passavam depressa por cima das poças ou se teríamos como voltar pra casa depois. Só o que valia era a vida, desarmada e com a garganta calada que começávamos ali. Fizemos da noite vinte e oito o passo saltitante de quem foi o grito de paz de um para o outro, a vida que fez do jeito que deu e desembocou daquele jeito solene debaixo da chuva. A chuva choveu pra nos ver. Mais dois dias de espera, e veio a segunda, a terça, a quarta, a quinta. Sete dias depois, terminou o serviço e pôde descansar: estava criado o eterno. E ali perto, no banco da praça - que é nossa - sob os mesmos olhares esquisitos de quem passava e nada entendia. Gagueira, suor, olhos marejados de espera, a fera no peito queria fugir. E explodiram, lá mesmo. Firmaram promessa de não se esquecerem, tão logo ouviu o primeiro "eu te amo" que nunca pensara um dia ouvir. Era um filme inédito. Seguiram-se os dias, semanas e meses, e as datas trouxeram novas formas de se darem as mãos. Fizeram juntos quase tudo o que dá para se fazer quando se está a dois. Só faltou o restaurante do Largo Machado, que ele reluta em ir. Eram a conta conjunta, uma vida adjunta de quem sonha no mesmo travesseiro com a mente no mesmo lugar. E nem precisavam do travesseiro... É que hoje, seis meses depois, descobri que eterno é o que ficou pra trás. Bom mesmo é viver o que fomos como a eterna forma de modelar o que somos. Sempre fomos o que somos agora, pequena. Sempre estivemos juntos, antes daqui, e estaremos juntos em cada instante separados que ainda iremos viver. Naquela noite chuvosa, pequena, suas pontas dos pés forjaram o eterno do metal bruto que alguém determinou pra nós. O tempo parou pra nos ver. A chuva caiu pra nos ver. E sempre para pra gente, e sempre chove pra gente. Seremos sempre dois corpos sob o mesmo guarda-chuva. Seremos sempre o tempo parado, qual fotografia, de cada momento vivido com a intensidade de quem ama de verdade. A prova dos nove do inusitado do encontro, no avançado da hora e - como você bem sabe - da forma engraçada que se deu. Melhor pra quem viveu. Somos juntos sob o mesmo teto preto-estrelado, meu amor. As lágrimas da noite hoje são nossas...
por Lucas Alvares * 1:59 AM Comments: ____________________
[Quarta-feira, Março 05, 2008]
Amor Perfeito
Muito obrigado por ouvir obrigado todas as vezes que eu disse te amo nos últimos meses. Agradecido por salvar minha pele e minha alma todo dia. Por ocupar a minha mente toda a hora. Por sentir o mesmo nó no peito todo minuto. Muito obrigado pelos cento e cinqüenta dias, de lágrimas e agradecimentos e algumas centenas de horas de boa conversa. Obrigado por ficar no Rio quando a família toda viaja, e os amigos estão longe. Escolheu ficar comigo. Muito obrigado por ser minha musa para mais de cem textos, quase um texto para cada centímetro seu. E escreveria um poema para cada fio de cabelo. Nessa data de cinco meses, antes de tudo eu agradeço. Agradeço a mão que tá com a minha e a paciência com meus pensamentos e enganos. Muito obrigado por acreditar na gente muito mais do que eu pensei, de início, que você fosse acreditar. Valeu mesmo por nos fazer sentir a eternidade na mais boba cena cotidiana. Cento e cinqüenta dias são muito mais do que cento e cinqüenta dias. São infinitos para quem viveu cada segundo com a cabeça no mesmo lugar. São a certeza de que vou continuar agradecendo por todos os meses que tenho pela frente.
por Lucas Alvares * 12:12 AM Comments: ____________________
[Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008]
A Volta Dos Que Não Foram
Roleta do ônibus
São mais de oito horas
As vidas que passam
Catracam seus sons
São almas penadas
Com vistas cansadas
E todas pedindo
A mesma oração
Todas as almas pedem paz
Silêncio e água gelada
Comida e cama arrumada
Espera de alguém que quer bem
Todas as almas são vívidas
Mesmo se mortas
Pois são os retratos
Do que foram um dia
por Lucas Alvares * 12:11 AM Comments: ____________________
[Terça-feira, Fevereiro 26, 2008]
Insone Planeta Insano
É noite na Batcaverna.
Com dor de barriga, com sede e sem sono
Sem água na jarra, com a porta trancada
Sem ter pra onde olhar ou se mover
Preso a mim mesmo e a meu sofrer
Sem mão pra dar, sem amor pra olhar
Sem sentir o que era ontem
Sem saber o que eu sou
Espero que a mão venha logo à minha
E a dor que eu vivo, tacanha, mesquinha
Seja a dor que logo passa
E a mão que vem tenha sempre a mesma graça
Quero a mão de quem eu sei que amo
De quem espera por mim, mesmo sem precisar
Nas noites das almas, insones, insanas
Ela quer e merece muito mais do que eu posso dar
por Lucas Alvares * 2:10 AM Comments: ____________________
[Sábado, Fevereiro 23, 2008]
Pestanas Pesadas
O sono vem em peso
Pesando nos olhos
Olheiras em volta
Dos olhos abertos
Que teimam em olhar
Pra tela da máquina
Janela dos outros
Infindo despertar
É sono que vem cerrar
O dia em que a dor se emcerrou
E o abraço virou pranto
Na sombra da amendoeira
É sono que vem pra cerrar
Os olhos de quem pede além
Mais sonhos perdendo o porém
Mais beijos pra nos encontrar
por Lucas Alvares * 12:54 AM Comments: ____________________
[Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008]
O Cair das Folhas 2
Lagoa, engarrafamento, 473, ônibus lotado sem cobrador. Mão que dirige e dá o troco, passa o ponto, ouve palavrão. Blusa azul aberta, botões brancos, cabeça suada, óculos escuros. Velhinas passando na roleta, reclamonas, resmunguentas. Bolsas de compras, trouxas de roupa, maletas da avon, cheiro de perfume barato. Cabelos emplastados de creme. Na rua, ao lado, uma mendiga com roupa de crente faz passos ingratos com os pés que Deus lhe deu, e pragueja contra os carros. É dor e vida no asfalto. No Rio faz calor, e falta de ar. Puxo a inspiração no ônibus lotado. Quero fazer o tempo passar. E penso no sonho, no amanhã que nem sei, no que nem construí. Quase nem. Há algo em comum na minha mesa no hoje e no amanhã. Uma jarra de prata amassada com flores brancas dentro, uma toalha de mesa que era da minha avó e as cadeiras roídas de cachorro. Teremos muitos. Depois do banho gelado, comemoro ter montado meu próprio horário. Não sou mais jornalista: posso jantar com minha mulher. Dou bronca nas crianças, reclamo do cabelo do Davi e o ponho no banho. Não vamos começar enquanto ele não se lavar. Na tevê, o Jornal Nacional. Cid Moreira, aos 100 anos, de volta à bancada. Não temos dinheiro. Grande parte de meus sonhos não foi realizada. Só dois já me bastam. Encontrei no de sempre a força pra chegar ao infinito. Meu trivial é cozinha internacional, graças a Deus. Lagosta ensopada no molho espanhol. Sou um ganhador da Mega-Sena. Por alguns minutos, senti naquele banco duro a certeza em ser feliz com tão pouco. Sim, é pouco mesmo. Um metro e quarenta e sete. O que me alenta e´que sou menos ainda. Ela pra mim é um gigante, a quem bato palma e faço discurso. Obrigado pela preferência, "pouquinha". Estaremos sempre juntos no banco do ônibus, quando houver lugar pra dois. E faço questão de pagar a passagem.
por Lucas Alvares * 11:51 PM Comments: ____________________
Acossados
O Mundo lá fora é feio
É a dor dos outros que sinto
Nas noites frias, famintas
Esquálidas e pálidas faces
A culpa é dos enlaces
Do encontro do mal com a ganância
Do só conquistar, sem lembrança
De que a vida enfrenta o sonho
É noite nas almas dos outros
Com medo, com fome e com dor
Sem sonho real, sem amor
Vivendo da vã esperança
Não se perde fácil a lembrança
Das almas perdidas, atadas
Escuras como o anoitecer
Naturezas mortas, derrotadas
por Lucas Alvares * 12:18 AM Comments: ____________________
[Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008]
A Corrida do Ouro
Era algum dia do meio do ano de 93, quando eu mal sabia escrever e pouco dava mostras de minha suposta aptidão para as humanidades e o bem-escrever, quando minha mãe resolveu consultar uma cigana. Deixo bem claro, isto para mim é uma bobagem. Quase não sinto o sobrenatural. Mas as bobagens fazem a lenda, e as lendas fazem os mitos sentimentais. A tal cigana fez duas afirmações: seu filho viverá um grande amor, e eu o vejo em aviões, indo para fora do Brasil. Até hoje, não saí daqui. Nem fui a Buenos Aires! No amor, só o que vive foram decepções, umas cinco. Duas, pelo menos, bem grandes. E outras ocasiões das quais lembro com carinho e preocupação, embora descarte totalmente um "retrô". Busquei nos últimos quatro meses o que todos passam quatro décadas para encontrar: o tal do amor perfeito, do encaixe de pensamentos e comportamentos que propicia o convívio harmônico e irresistível entre duas pessoas. Ainda não sou feliz. Mas encontrei o amor perfeito, ainda que em pensamentos e comportamentos distintos dos meus. E ele me faz um pouco melhor. Durante muito tempo, achei cedo para considerá-lo o citado "grande amor". Ouvi muitos "não-se-prendas" com verdadeiro pavor de ver a reprovação nas vistas próximas, e desconfiança no ideal da felicidade. O que é ser feliz? Para mim, é ser completo. Nunca consegui me desvencilhar da dor que o olhar dos outros causa. Por isso, sempre quis ser a resposta minha para mim mesmo. Sem erro, sem dor. Encontrei na Isabela, antes de tudo, a chance de pensar de forma um pouco mais concreta no que eu tenho que fazer amanhã de manhã, no que eu não posso me esquecer de pensar e no que seria amável que eu dissesse. Senti, pela primeira vez na vida, uma canhota não largar de minha mão direita, a vontade de me abraçar sem que eu pedisse um abraço, e de me ter junto sem que eu a procurasse. Vi o amor mais desinteressado e - paradoxalmente - engajado de todos os que pude acompanhar. Chorei, algumas vezes. E isso eu não fazia há muito tempo. Pedi a eternidade ao mesmo tempo em que queria que o minuto anterior voltasse na fita para que o sentisse outra vez. Vi, pela primeira vez, como é viver junto e sonhar com um você que não é só você, e sim dois ou três. Enxuguei muitas lágrimas, e abri muitos sorrisos como quem espoca uma garrafa de champanha, em comemoração pela vida e pelo encontro. Senti muitos sorrisos, mesmo quando não os vi. Fui um misto de pressa e saudade. E hoje sou saudade do que eu queria que fosse, lá atrás, quando comecei a pensar em como eu seria quando ficasse adulto. Não sou o que eu queria. Mas tenho quem me ame. Espero desse amor tudo o que ele espera de mim, e que eu tenho tentado dar nesses últimos meses. Espero dele a vida inteira, ainda que tenha medo de não tê-lo mais amanhã. Quero uma vida bela e uma boa história pra contar. E ainda sei onde encontrar meu colo, meu abraço e meus sorrisoso. Sei pra onde direcionar meu pensamento, em lágrimas, nas horas em que só quero uma boa cama pra deitar. E não mais só. A vida se tornou uma corrida do ouro. Não posso prever se serei feliz. Mas posso esperar nunca estar sozinho.
por Lucas Alvares * 11:36 PM Comments: ____________________
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